DEVOLUÇÃO E ENCAMINHAMENTO
De acordo com os dados coletados ao longo do processo de avaliação familiar, a devolução centrou-se em pontuar questões que a família estava vivenciando, mas não conseguia perceber conscientemente. As dimensões avaliadas foram abordadas pelos psicoterapeutas com linguagem clara e acessível aos membros da família, começando pelos aspectos facilitadores e finalizando com os aspectos dificultadores da saúde emocional familiar. Foram ressaltadas, sobretudo, questões relacionadas à afetividade entre pai e filhos, à delimitação de papéis, ao estabelecimento de regras familiares e ao reconhecimento das individualidades. Foram também abordadas a reestruturação familiar deflagrada pela mudança para a casa do pai, mudanças do ciclo vital familiar (família com filhos adolescentes) e a vivência de lutos recentes como elementos importantes a serem elaborados em conjunto.
A dificuldade de expressar experiências emocionais na família foi apontada, assim como a demanda latente, sobretudo dos filhos, de espaço para o compartilhamento de medos e sofrimentos. Os membros da família precisavam compreender as vivências internas uns dos outros, para favorecer a intimidade familiar. A questão da vergonha e do desamparo eram aspectos centrais do funcionamento psíquico dessa família.
Ricardo parecia inseguro em exercer a paternidade, por conta da intensidade de suas vivências psíquicas infantis. Observou-se que o isolamento de Ricardo e a falta de apoio da rede familiar no exercício da parentalidade intensificavam suas inseguranças. Nesse sentido, a vulnerabilidade social vivenciada pela família contribuiu para a fragilidade afetiva do pai e dos filhos. Todas essas dificuldades contribuíram para que Isadora se tornasse parentalizada, com risco de cristalização desse funcionamento. A filha ocupava a função parental, ocorrendo uma inversão geracional. Sendo assim, considerou-se adequado o encaminhamento para psicoterapia de família.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As múltiplas configurações familiares contemporâneas – famílias de primeiro casamento, famílias adotivas, separadas, recasadas, monoparentais e homoparentais – apresentam diversas dificuldades que provocam sofrimento psíquico, levando-as a buscar ajuda psicológica. O processo de psicoterapia de família se inicia com a avaliação familiar, na qual, muitas vezes, são aplicados instrumentos de avaliação psicológica que permitem formular hipóteses diagnósticas e definir estratégias terapêuticas. Como foi destacado, a prática clínica com famílias em condição de vulnerabilidade social apresenta algumas especificidades, dentre as quais se ressalta a importância de o psicoterapeuta usar um vocabulário acessível, determinar a frequência das sessões, considerando os escassos recursos financeiros para o pagamento do transporte dos membros familiares, compreender a frágil adesão ao tratamento e o contexto de desamparo e violência em que se encontram tais famílias.
A partir do objetivo proposto neste capítulo, ou seja, descrever o processo de avaliação familiar no contexto de vulnerabilidade social, discutiu-se um caso clínico por meio da apresentação de dois instrumentos de diagnóstico de família. A descrição dos instrumentos e de seus objetivos e a discussão dos dados obtidos com a aplicação deles evidenciaram a importância científica e social da avaliação psicológica no processo de atendimento a famílias no contexto de vulnerabilidade social.
A aplicação dos instrumentos de avaliação familiar tornou possível que, em pouquíssimas sessões, um material rico e importante para compreender a dinâmica da família viesse à tona, permitindo o adequado encaminhamento do caso. A análise da EFE possibilitou perceber as dificuldades da Família Lopes quanto à integração familiar e à liderança, assim como a delimitação pouco clara de papéis familiares e a precária individualização dos membros da família. Tal análise permitiu também avaliar as falhas na comunicação e a grande inibição na expressão de afeição física na família.
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