ANÁLISE DO ADF

Por meio da aplicação do ADF, constatou-se que alguns desenhos corroboraram algumas das hipóteses cogitadas. O primeiro desenho livre de Camilo (Figura 7.1) chamou bastante atenção.

[Figura 7.1]

Tal ilustração possibilita compreender melhor a dificuldade de Ricardo ocupar o lugar parental. Camilo foi desenhado sendo maior que Ricardo. Talvez, o filho se sentisse com mais recursos subjetivos do que o pai, percebendo as limitações psíquicas deste último. Seu desenho é rico em cores e em elaboração, diferenciando-se muito do primeiro desenho livre do pai, em que usou apenas a cor amarela e sem força nos traços, ficando quase invisível no papel. Talvez, fosse assim que Ricardo se sentisse internamente, repercutindo sua dificuldade de ocupar um lugar, sobretudo de pai. No desenho de Camilo, também se destaca o cordão com a árvore frutífera. Será um desejo de ligação materna? Ele segura o cordão que o conecta com os frutos. De fato, ele se apresenta como o membro com mais capacidade criativa, lúdica e de expressão dos afetos.

Isadora, que pouco expressou as emoções, representou, no primeiro desenho livre, o cachorro morto. Por meio da comunicação projetiva, ela parece dar espaço a seu luto pela perda do cachorro. Ao explicar o desenho, descreveu sua relação com o cachorro e o lugar dele na dinâmica familiar. O desenho de Ricardo (Figura 7.2) é monocromático, de cor clara quase invisível, deixando os contornos fragmentados e pouco definidos. Ele desenhou uma paisagem, na qual chama atenção a apatia, que expressa sua própria vivência subjetiva projetada nos filhos.

[Fig.7.2]

Na segunda tarefa, que consistiu em desenhar o “retrato da família”, mais uma vez se destacou o desenho de Camilo (Figura 7.3) em contraste com o do pai (Figura 7.4).

[Fig.7.3]

[Fig.7.4]

No desenho de Camilo, destacam-se a ausência da mãe e a inclusão de sua irmã mais nova, fruto do terceiro casamento da mãe. O pai é representado como forte, mas do mesmo tamanho que o filho. Há ambivalência em relação à figura paterna: ao mesmo tempo que há o reconhecimento da diferença, há também uma horizontalização de papéis. Em relação ao desenho do pai, destacam-se novamente as figuras sem forma e com precária nitidez, corroborando a interpretação de falta de fronteiras e indefinição de lugares na família, assim como a fragilidade identitária paterna.

Isadora fez o desenho de si mesma e de sua irmã pequena (Figura 7.5), ficando excluídas as figuras parentais. Ela explicitou o desejo de, quando começar a trabalhar, comprar uma casa para si mesma e para a irmã mais nova morarem juntas. Estaria ela expressando o papel precoce de cuidadora da família? Desejaria ela que seus aspectos infantis pudessem ser acolhidos por alguém que ocupasse o lugar parental de fato? Esse desenho confirma as atitudes parentalizadas que ela vinha expressando no atendimento, como aceitar as solicitações do pai de ser a responsável por falar com as psicoterapeutas, assumindo a “administração” do tratamento.

[fig. 7.5]

Por fim, destacamos os desenhos da família abstrata de Isadora (Figura 7.6) e de Camilo (Figura 7.7) pela grande semelhança entre eles. Os dois representaram os membros familiares por meio de figuras tipo emotions, ou seja, mulheres adultas da família com expressões de fúria. As figuras femininas parecem ser hostis e pouco acolhedoras. No desenho de Isadora, ela se representou com um emotion que significa atordoamento e o irmão chorando. Com isso, pode-se pensar que há sofrimento dos irmãos que precisa ser entendido e significado. Talvez não fosse a falta de interesse a maior problemática dos adolescentes, sintoma identificado pelo pai. O tormento maior parecia estar relacionado a algo que deveria ocorrer, estar presente, mas que não estava. Seria a presença de figuras parentais claras e seguras? Desse modo, pode-se pensar que Ricardo não estava tão desconectado da dor psíquica de seus filhos.

[Fig.7.6]

[Fig.7.7]

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