AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA COM FAMILIAS EM CONDIÇÕES DE VULNERABILIDADE SOCIAL
A Constituição Brasileira de 1988 concebe a entidade familiar como a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. Nas múltiplas configurações familiares da atualidade, os laços de afeto predominam em relação aos vínculos biológicos e, além das famílias de primeiro casamento, convivem na sociedade atual famílias adotivas, separadas, recasadas, monoparentais e homoparentais. São diversas as dificuldades que provocam sofrimento psíquico e levam tais famílias a buscarem ajuda psicológica.
O processo de psicoterapia de
família se inicia com a avaliação familiar, que inclui todos os membros da
família e permite compreender a psicodinâmica da família e suas demandas latentes,
favorecendo o encaminhamento psicoterápico adequado ao grupo e/ou a seus
membros. A avaliação familiar se estrutura por meio de entrevistas
preliminares, nas quais frequentemente é (são) aplicado(s) um ou mais
instrumentos de avaliação psicológica selecionados pelos psicólogos,
considerando a configuração familiar e as especificidades que envolvem a queixa
inicial. Durante o processo de avaliação familiar, são coletados dados clínicos
necessários à formulação da hipótese diagnóstica, a partir da qual as
estratégias terapêuticas são definidas e subsidiarão as intervenções durante
todo o processo psicoterápico.
Ao longo das entrevistas
preliminares, deve-se identificar se há predominância de conflitos
intersubjetivos, assim como a qualidade dos vínculos estabelecidos entre os
membros e as vivências emocionais compartilhadas (Machado, Féres-Carneiro,
& Magalhães, 2011). Portanto, procura-se investigar a presença de questões
interpsíquicas, que não devem ser consideradas uma mera reunião de conflitos individuais,
mas, sim, uma produção emocional coletiva de impasses e vulnerabilidades
relacionais.
O encaminhamento inicial para a
avaliação familiar é feito, frequentemente, por profissionais dos campos da
saúde, da educação e da justiça, que identificam o transbordamento de problemas
emocionais individuais para o âmbito familiar. Frequentemente, famílias com
indivíduos em condição de vulnerabilidade social apresentam queixas difusas
relacionadas ao desamparo e à violência social. Nesse contexto, a vulnerabilidade
atinge toda a família, que sofre efeitos da escassez de redes de apoio
emocional e social (Magalhães, Féres-Carneiro, Machado, & Dantas, 2017;
Magalhães, Féres-Carneiro, Machado, & Mello, 2015). Muitas vezes, as
queixas são depositadas sobre os filhos, mas envolvem dificuldades na
delimitação dos papéis familiares e no estabelecimento da hierarquia familiar,
de regras, de limites e de fronteiras intra e extrafamiliares. Conflitos entre
os familiares e questões afetivo-emocionais, mesmo quando identificados como
questões individuais, geram sofrimento para todo o grupo familiar. As queixas
trazidas pela família são explicitadas, analisadas e elaboradas rumo à
construção de uma demanda compartilhada (Machado, Féres-Carneiro, &
Magalhães, 2011).
É importante destacar que a
interdependência absoluta e indiscriminada entre os membros, permeada por uma
interação pouco criativa, com padrões relacionais rígidos, afeta a saúde
emocional e a familiar, o que se reflete nas dificuldades da família em
enfrentar os desafios inerentes às etapas do ciclo de vida. No período de
avaliação, quando se verifica a presença desse conjunto de fatores, a indicação
de psicoterapia de família é fundamental, pois é por meio dessa modalidade de
tratamento que as questões intersubjetivas poderão emergir e ser pensadas. O
número de sessões necessárias à realização da avaliação familiar varia em
função das especificidades do caso e da configuração familiar. Em alguns casos,
é necessário realizar entrevistas com alguns subsistemas familiares
separadamente (casal conjugal, casal parental, pais individualmente,
subsistemas com inclusão de madrastas e/ou padrastos, irmãos socioafetivos,
entre outros). Em média, são necessárias entre quatro e seis entrevistas
preliminares, incluindo sessões para aplicação de instrumentos/testes e a
sessão de devolução.
Os participantes no processo de
avaliação familiar também são variáveis, pois as famílias podem apresentar
configurações que incluem membros da família extensa e parentes por afinidade,
como figuras centrais para a psicodinâmica familiar, muitas delas exercendo
funções parentais. Pesquisas realizadas com famílias atendidas em clínicas
sociais apontam que as mulheres, majoritariamente, exercem os cuidados
parentais nas famílias em condição de vulnerabilidade social (Magalhães,
Féres-Carneiro, Machado, & Dantas, 2017; Magalhães & Féres-Carneiro,
2015). Contudo, as funções de cuidado são muitas vezes pulverizadas, sem muita
clareza quanto a quem assume as responsabilidades parentais. Ressalta-se o
papel das avós, madrinhas e vizinhas no cuidado com as crianças e adolescentes.
Outro dado importante é a relevante participação de instituições sociais não
governamentais no apoio instrumental às famílias. Os pais/cuidadores buscam
atividades extraescolares, como oficinas de apoio aos estudos, atividades
esportivas e outras atividades culturais em organizações não governamentais
(ONGs) para suprir carências do ensino e como meios de manter as crianças e os
adolescentes protegidos da violência social.
Nas famílias em condição de
vulnerabilidade social, as redes familiar e social se configuram de modo muito
variável, sendo geralmente escassas as condições de proteção social que
favorecem a consolidação dessas redes (Magalhães, Féres-Carneiro, Machado, &
Dantas, 2017; Magalhães, Féres-Carneiro, Machado, & Mello, 2015). Em geral,
as famílias moram em habitações precárias e distantes do trabalho, os pais
possuem baixa escolaridade e contam com uma rede de apoio reduzida em termos de
apoios familiar e social. Em famílias com crianças, sobretudo os pais revelam
sentimentos de desamparo quanto às condições de suportes social e emocional ao
exercício da parentalidade. A vulnerabilidade familiar é significativamente
relacionada ao volume de recursos adicionais requeridos quando comparado ao de
uma família padrão (Carvalho, Barros, & Franco, 2010/2005). Várias
pesquisas (López et al., 2007; Menéndez, Hidalgo, Jiménez, Lorence, &
Sánchez, 2010; Macedo, Nunes, Costa, Nunes, & Lemos, 2013) apontam que
indivíduos em situação de vulnerabilidade social apresentam menos satisfação
com o apoio emocional recebido do que com outros tipos de apoio, destacando a
importância do fortalecimento e da ampliação das redes de apoio nas
intervenções com famílias. Nessas famílias, sobretudo, ressalta-se a
importância de a avaliação familiar contemplar a análise das redes familiar e
social, visando a futuras intervenções voltadas ao fortalecimento destas.
Com base em nossa experiência em
atendimentos a famílias no Serviço de Psicologia Aplicada do Departamento de
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (SPA-PUC-Rio),
uma clínica-escola que presta serviços à comunidade, observamos que existem
especificidades na prática clínica com famílias em condição de vulnerabilidade
social. A atenção quanto às especificidades que envolvem a clínica com essa
população é particularmente importante durante o processo de avaliação
familiar, sobretudo na seleção de instrumentos de avaliação psicológica
adequados e no estabelecimento do rapport.
A primeira especificidade diz
respeito à comunicação. Ressalta-se a importância de estabelecer uma cuidadosa
interação nos primeiros contatos entre os psicoterapeutas e a família,
levando-se em conta o vocabulário utilizado por indivíduos com baixa
escolaridade, assim como os modos de expressão oral e escrita utilizados por
eles. Ademais, pode também haver diferenças dentro da família relativas ao
nível educacional e ao sociocultural dos seus membros, refletidas nas
dificuldades de comunicação entre os próprios familiares. Tal aspecto
influencia a seleção dos instrumentos de avaliação, uma vez que a
vulnerabilidade dos membros da família pode atingir diversos níveis,
dificultando a compreensão e a realização dos procedimentos, quando, por
exemplo, um ou mais familiares não sabe(m) escrever, não compreende(m)
determinados termos e/ou tem (têm) vivências de humilhação ou idealização
relacionadas ao desempenho intelectual e à linguagem.
Uma segunda especificidade
relaciona-se à escassez de recursos básicos instrumentais que viabilizam o
comparecimento dos familiares às entrevistas, de acordo com a frequência
determinada pelos psicoterapeutas e a convocação dos subsistemas familiares.
Frequentemente, os familiares queixam-se da escassez de recursos financeiros
para o transporte, assim como de horários disponíveis para reunir todos os
familiares implicados na demanda terapêutica, nas entrevistas preliminares.
Deve-se considerar as longas jornadas de trabalho/deslocamento dos indivíduos
das camadas pobres e a falta de apoio no cuidado com as crianças menores, por
exemplo, quando é necessário comparecer a entrevistas exclusivas para os
pais/adultos que exercem cuidados parentais. Nesse sentido, é importante
planejar a avaliação familiar no menor espaço de tempo possível e ser flexível
quanto às solicitações de comparecimento dos membros implicados, priorizando as
possibilidades reais da família e não criando expectativas idealizadas, que
muitas vezes não podem ser cumpridas, gerando frustrações e sentimentos de
fracasso e incapacidade.
A frágil adesão ao processo de
avaliação familiar é também uma especificidade da clínica com famílias em
condição de vulnerabilidade social. É comum haver muitas faltas de um ou mais
membros da família, assim como atrasos e cancelamentos, que interferem na
avaliação familiar, prolongando o processo e/ou gerando descontinuidades e
instabilidades. A instabilidade pode ser também entendida como uma forma de a
família expressar as diversas descontinuidades que viveu e vive, algumas delas
relacionadas ao contexto de vulnerabilidade social, além de revelar o modo
frágil como são estabelecidos os laços familiares. Esse aspecto traz
repercussões significativas às vivências contratransferenciais dos
psicoterapeutas, como inseguranças, anseio de cura e desânimo, que, em níveis
intensos, acabam interferindo na avaliação familiar e na condução subsequente
do caso.
Outra especificidade importante é
o contexto de desamparo e violência no qual se desenrola a vida das famílias em
condição de vulnerabilidade social. Muitas famílias residem em comunidades em
condições extremamente precárias, nas quais ocorrem diversos tipos de
irregularidades e violências com reflexos na história de vida familiar. As
situações de violência produzem traumas nas famílias, afetando os vínculos
intersubjetivos, gerando distorções de percepção e comunicacionais. Muitas
vezes, os elementos traumáticos são transmitidos geracionalmente (Käes, 2003),
sem a devida elaboração, constituindo obstáculos à saúde emocional da família
e, consequentemente, ao desenvolvimento de seus membros, sobretudo crianças e
adolescentes (Magalhães & Féres-Carneiro, 2015).
A interação com outros serviços
de saúde, como a psiquiatria, além do apoio pedagógico, entre outros serviços,
é mais uma especificidade da clínica com famílias com indivíduos em condição de
vulnerabilidade social. Em razão das precárias condições de vida, essas
famílias apresentam dificuldades em diversas áreas, necessitando de tipos de
encaminhamento específicos. Esses encaminhamentos devem ser acompanhados pelos
psicoterapeutas que, frequentemente, funcionam como mediadores, fornecendo
informações e esclarecimentos que favorecem o acesso das famílias a outros
serviços. Ao final da avaliação familiar, a família receberá uma devolução que
incluirá a orientação quanto aos encaminhamentos necessários a seus membros, de
acordo com questões individuais identificadas.
Alguns cuidados éticos
específicos também devem ser observados durante a avaliação de famílias
vulneráveis. Além dos cuidados com sigilo e obtenção do livre consentimento
para fins de ensino, pesquisa e publicação, quando a avaliação ocorrer em
instituição de ensino, haverá outras questões éticas relacionadas ao trabalho
clínico com famílias. Deve haver cuidado especial para evitar a exposição
inadequada de conteúdos individuais e/ou conjugais que os sujeitos, muitas
vezes, têm dificuldade de filtrar ou conter durante as entrevistas preliminares
com a família. Durante a aplicação de instrumentos de avaliação, no manejo técnico
se deve manter atenção especial a esse aspecto, na medida em que a revelação
dos conteúdos psíquicos se dá de modo grupal e compartilhado. Os
psicoterapeutas devem cuidar da preservação psíquica de sujeitos vulneráveis,
acolhendo os seus sofrimentos e favorecendo a canalização da expressão de
conteúdos psíquicos e de afetos apropriadamente. Quando necessário, devem
intervir, favorecendo a contenção e evitando a exposição inadequada, podendo
oferecer um espaço individual ou conjugal para acolher ansiedades primitivas,
eventualmente mobilizadas e transbordadas na forma de excesso psíquico. No
trabalho clínico com famílias, o psicoterapeuta deve considerar a importância
de preservar a convivência familiar e, ao mesmo tempo, atentar para a proteção,
o cuidado e a preservação dos direitos, não apenas das crianças e adolescentes,
isoladamente, mas da família como um todo (Moreira, Passos, Bedran, &
Carellos, 2012).
Após destacar algumas
características da avaliação familiar e as especificidades da clínica com
famílias em situação de vulnerabilidades social, este capítulo tem o objetivo
de descrever o processo de avaliação familiar, neste contexto, por meio da
apresentação de dois instrumentos de diagnóstico de família _ a Entrevista
Familiar Estruturada (EFE) e o Arte-diagnóstico Familiar (ADF) – e da discussão
de um caso clínico em que tais instrumentos foram utilizados. O caso a ser
discutido foi atendido pela equipe de Psicoterapia Familiar no Serviço de
Psicologia Aplicada (SPA) da PUC-Rio.
Commentaires
Enregistrer un commentaire