INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO FAMILIAR

Vários instrumentos de avaliação familiar, com enfoques e objetivos diversos, são utilizados na clínica com famílias. Na sua quase totalidade, tais instrumentos foram construídos fora do Brasil e não foram validados para a população brasileira. Neste capítulo, vamos apresentar dois métodos de avaliação familiar: o Arte-Diagnóstico Familiar (ADF) (Kwiatkowska, 1977), utilizado apenas para pesquisa, pois não possui parecer favorável do Conselho Federal de Psicologia (CFP), e a Entrevista Familiar Estruturada (EFE) (Féres-Carneiro, 2005), que apresenta parecer favorável do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi/CFP) desde 31 de março de 2005, para comercialização e uso na clínica psicológica. De acordo com a Resolução no 009/2018 do CFP, o ADF pode ser utilizado como fonte complementar de dados. Tais técnicas englobam diferentes perspectivas e a possibilidade de obtenção de múltiplos dados, individuais e intersubjetivos, verbais e não verbais.

ADF – Arte-Diagnóstico Familiar (Kwiatkowska, 1977)

Criado pela arte-terapeuta Hanna Kwiatkowska (1977), o ADF é uma técnica projetiva gráfica cujo objetivo é viabilizar a expressão pessoal de maneira ampla, a partir de desenhos e comentários sobre estes. A aplicação desse instrumento permite trazer à tona questões que dificilmente seriam discutidas no início de uma psicoterapia de família. Elementos variados da dinâmica familiar, como o padrão comunicacional e a formação de alianças, são explicitados. Assim, por meio da aplicação do método, aspectos intrapsíquicos e interacionais podem ser coletados, além de se poder observar o grau de potencialidade criativa, a plasticidade e a capacidade de expressão da família.

O ADF é composto de seis desenhos realizados por todos os membros da família, em uma única sessão, que tem duração de uma hora e meia a duas horas. Para a realização dos desenhos, é preciso que a família se organize em um semicírculo no setting terapêutico, de modo que cada membro possa ver e comentar todos os desenhos. As folhas de papel ficam apoiadas em cavaletes ou pranchetas grandes, nos quais já devem constar seis folhas de papel de tamanho A3 (18 x 24). Após cada etapa, pede-se que a família retire a folha usada. Próximas aos cavaletes ou às pranchetas, devem estar disponíveis caixas contendo lápis de cera de cores variadas.

A elaboração dos seis desenhos segue a seguinte ordem: um desenho livre, depois um retrato da família, um retrato da família abstrata, uma figura derivada de um rabisco individual, uma figura derivada de um rabisco em conjunto e, por fim, um segundo desenho livre. É muito importante que a ordem determinada seja seguida, pois cada tema produz afetos intensos e estressantes, os quais são trabalhados no desenho subsequente (Kwiatkowska, 1977). Durante a construção dos desenhos, deverão ser observados os comportamentos não verbais e os comentários. Solicita-se que cada pessoa dê um título a cada uma das criações, além de assiná-las e datá-las.

Após a conclusão de cada desenho, incentiva-se que os membros da família comentem o próprio desenho e façam as perguntas que desejarem sobre os demais desenhos. Essa discussão é estimulada para explorar e explicar os significados do material produzido (Kwiatkowska, 1977). O papel do psicoterapeuta é de observação e compreensão, tanto na discussão quanto no momento de criação, não devendo fazer nenhum comentário interpretativo. Uma postura mais ativa poderá ser assumida pelo psicoterapeuta na sessão de devolução.

A aplicação dessa técnica permite a coleta de três tipos de dados: figuras gráficas, intercâmbios verbais e interação não verbal. Todo material observado deve ser analisado de forma integrada, considerando que cada um complementa e valida o outro (Machado, Féres-Carneiro, & Magalhães, 2011). É importante estar atento em relação à qualidade de saúde interacional, à capacidade de individuação e de envolvimento, às alianças e à disponibilidade para o trabalho compartilhado.

A entrevista de devolução representa a etapa final do período de avaliação, tendo como objetivo básico a transmissão, para a família, das observações do psicoterapeuta. Parte-se do motivo de busca do tratamento, procurando avaliar se realmente a queixa manifestada consiste no ponto central do sofrimento psíquico. A sessão de devolução para a família deve ser calcada na lógica circular, e não unidirecional, na qual se busca manter um diálogo. O psicoterapeuta deve também analisar as repercussões de suas intervenções, segundo as respostas da família. As reações dos membros diante do que foi percebido durante a aplicação do ADF são muito relevantes, pois correspondem a novas fontes de dados, que ajudam a ratificar as percepções do psicoterapeuta acerca do diagnóstico e do prognóstico.

É muito importante, entretanto, ponderar sobre o que será dito à família, tendo em vista a capacidade de o ego familiar suportar a realidade psíquica. O psicoterapeuta deve escolher linguagem apropriada para transmitir suas observações e abordar os conteúdos desconhecidos e dolorosos. Com a aplicação do ADF, os desenhos funcionam como veículos importantes para ilustrar as interpretações. As ilustrações embasam as observações clínicas, dando validação ao discurso do psicoterapeuta. A sessão de devolução permite também recontemplação e elaboração conjunta sobre os desenhos. Após oferecer um espaço para a reflexão da própria família, o clínico faz, então, suas interpretações.

EFE – Entrevista Familiar Estruturada (Féres-Carneiro, 2005)

A EFE foi o primeiro método clínico de avaliação das relações familiares construído no Brasil, levando em conta as características da maior parte da nossa população e de nossos serviços de atendimento psicológico, utilizando, portanto, uma linguagem simples e exigindo da família respostas faladas e/ou não verbais. Além disso, para sua aplicação, necessita-se, além do entrevistador e do observador, apenas de um gravador.

Sua primeira versão foi criada, em 1975, pela psicoterapeuta de família e casal Terezinha Féres-Carneiro. Posteriormente, tal versão foi modificada, buscando adaptá-la a diferentes segmentos socioculturais. A versão final foi validada pela autora no início da década de 1980 (Féres-Carneiro, 1981; 1983; 1997) e encontra-se publicada como teste psicológico pela Casa do Psicólogo (Féres-Carneiro, 2005), após aprovação no CFP (Satepsi), em 31 de março de 2005.

A EFE é composta de seis tarefas, cinco verbais e uma não verbal, das quais duas (tarefas 1 e 4) são propostas à família como grupo e as outras, a cada membro individualmente. Embora cada tarefa pretenda, de modo específico, explicitar determinadas dimensões da dinâmica conjugal e/ou da dinâmica grupal, todas as tarefas, de forma geral, pretendem avaliar padrões básicos de funcionamento da família. Assim, o objetivo da EFE, enquanto teste psicológico, é avaliar em que medida a interação familiar promove a saúde emocional dos membros da família.

São as seguintes as tarefas que compõem a EFE e seus objetivos específicos:

Tarefa 1: “Vamos imaginar que vocês teriam que mudar da casa onde moram, no prazo máximo de um mês. Gostaria que vocês planejassem agora, em conjunto, como seria esta mudança.” Essa tarefa pretende avaliar como a família funciona enquanto grupo. Como se processa a comunicação, como a família lida com as diferenças e os conflitos, como surgem as lideranças e como a família é capaz de ser produtiva e chegar a conclusões conjuntas, respeitando as individualizações.

Tarefa 2: “Quando você está fazendo uma coisa qualquer, mas fica difícil terminar essa tarefa sozinho, o que você faz?” O objetivo dessa tarefa é avaliar em que medida os membros da família são capazes de buscar ajuda sem desmerecer os próprios recursos e, a partir daí, fornecer dados sobre a autoestima de cada membro.

Tarefa 3: “Diga de que coisas você mais gosta em você.” Com essa tarefa, pretende-se também obter indicações sobre a autoestima dos membros da família, à medida que cada um conseguir perceber coisas boas em si mesmo, ou seja, gostar ou não de si mesmo.

Tarefa 4: “Como é um dia de feriado na família?” Um dos objetivos dessa tarefa é fazer uma avaliação da relação conjugal. Caso não surja, espontaneamente, nas respostas da família, nada específico sobre o casal, o entrevistador perguntará sobre suas atividades. Pretende-se verificar se o subsistema conjugal está presente na família e se funciona como um modelo gratificante de relação de casal.

Tarefa 5: “Imagine que você está em casa, discutindo com uma pessoa qualquer da família, e alguém bate na porta. Quando você vai atender, a pessoa com quem você estava discutindo lhe dá um empurrão. O que você faz?” Nessa situação, pretende-se observar se a família permite a expressão de sentimentos agressivos e se a agressividade pode ser manifestada em relação a qualquer membro. Observa-se também se os sentimentos de raiva podem ser vivenciados sem ameaça de destruição e se a agressividade pode ser usada de forma construtiva.

Tarefa 6: “Cada um de vocês vai escolher uma ou várias pessoas da família – pode ser qualquer pessoa – e vai fazer alguma coisa para lhe mostrar que você gosta dela, mas sem dizer nenhuma palavra.”

À medida que impede o uso da palavra, essa tarefa pretende verificar em que medida o contato físico, como manifestação do afeto tão importante para a promoção de saúde emocional na família, é permitido por esta.

Oito categorias de análise estão contidas na avaliação da EFE: comunicação, papéis, liderança, manifestação da agressividade, afeição física, interação conjugal, individualização, integração e autoestima, todas elas contidas na categoria geral intitulada promoção de saúde emocional na família.

Para a análise do material clínico obtido com a aplicação da EFE, são propostas escalas de avaliação, em que as categorias anteriormente mencionadas são qualificadas, usando-se pares de adjetivos polarmente opostos, em escalas de tipo likert de sete pontos, nas quais aqueles relacionados à promoção de saúde emocional ficam no ponto 7 da escala. Além de utilizar as escalas, o avaliador deve também fazer uma avaliação discursiva à parte, quando, em relação à determinada categoria, houver dados discrepantes entre os membros de uma mesma família.

A EFE conceitua uma interação familiar promotora de saúde emocional como aquela em que a comunicação é clara e congruente; os papéis familiares são diferenciados e flexíveis; a liderança está presente, sendo diferenciada e democrática; os conflitos podem ser expressos, havendo busca de solução para estes; a agressividade pode ser manifestada de forma construtiva; a afeição física está presente; a interação conjugal é diferenciada e gratificante; as individualidades são preservadas ao mesmo tempo que a identidade grupal promove integração da família, permitindo a formação e a explicitação de sentimentos de elevada autoestima em seus membros (Féres-Carneiro, 2005).

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