CASO CLÍNICO
Será descrito um processo de avaliação familiar realizado no SPA da PUC-Rio, por uma dupla de psicoterapeutas do sexo feminino. A família atendida, de configuração familiar separada, foi denominada família Lopes, sendo composta do pai, Ricardo (50 anos; trabalhava como guarda-vidas de piscina), e seus dois filhos, Isadora (14 anos) e Camilo (12 anos), que moravam com ele havia aproximadamente dois anos, embora a filha tenha vindo primeiro. O pai era separado da mãe, Teresa (40 anos), das crianças havia oito anos e não se recasara; a mãe, no entanto, havia se recasado, tinha uma filha (9 meses) da relação atual e outra de 18 anos de uma relação anterior. A família Lopes morava em uma favela/comunidade da cidade do Rio de Janeiro. A mãe, que não compareceu a nenhuma entrevista, morava distante dos filhos, em outra favela/comunidade, com índices mais altos de violência à época. Ricardo residia na casa de sua mãe, uma moradia com três cômodos distribuídos em três andares com entradas independentes. No nível inferior, permaneciam as mulheres da família (avó, tia e Isadora), no segundo nível, morava um parente sozinho, e no último nível, dormiam Ricardo e Camilo. A mudança da filha para a casa do pai se deu porque as precárias condições da moradia da mãe provocaram dificuldades respiratórias na menina.
A queixa inicial centrava-se no questionamento de Ricardo sobre “a falta de interesse dos filhos em tudo”. De acordo com a percepção do pai, eles não se interessavam por nada, estudavam pouco, não demonstravam interesse por atividades extras (esportes, por exemplo) nem realizavam as tarefas domésticas a eles designadas. O pai não sabia como lidar com a educação dos filhos, sentia-se impotente, desorientado e temia pelo futuro deles.
O processo de avaliação familiar ocorreu em oito encontros, incluindo sessões com os três (pai e dois filhos), sessões para aplicação da EFE e do ADF, uma sessão individual com o pai e duas sessões de devolução com a família. Houve algumas faltas, no decorrer do processo de avaliação, e tentativas frustradas de entrevistar a mãe, que não compareceu. Isadora ocupava o papel de interlocutora da família, sendo o contato para marcar e desmarcar as entrevistas. O pai alegava que a filha era mais atenta ao celular.
As duas primeiras entrevistas tiveram o objetivo principal de abordar o contexto familiar e a demanda latente, buscando compreender para além do discurso manifesto dos membros. Para tal, foram conduzidas de maneira livre, buscando ouvir as associações de todos, sobretudo tentando compreender as vivências emocionais e a psicodinâmica familiar. Nas primeiras entrevistas, predominava o discurso do pai sobre sua preocupação com os filhos. Relatou que “a filha chegava em casa da escola, largava a mochila e ficava deitada na cama o dia todo”. O estado de inércia e de desvitalização da filha despertava forte ansiedade em relação ao futuro dos filhos. Assim como a filha, o pai se mostrava também sem vitalidade para desempenhar a função parental.
Havia pouco apoio emocional no cuidado com os filhos, embora a avó paterna e a tia fornecessem apoio instrumental, cuidando da comida e da casa. A avó tinha relação conflituosa com os netos, com brigas e reclamações constantes. A mãe deles, segundo o pai, tinha temperamento descontrolado, exigia dos filhos manifestações afetivas amorosas e lidava impetuosamente com a “rebeldia” deles, sobretudo a de Camilo. Os finais de semana dos filhos na casa da mãe eram um fator de inquietação para o pai, que tinha receio dos frequentes tiroteios na comunidade e do temperamento dela. Os filhos ouviam os relatos do pai com atenção, sem discordar dele. Isadora tinha expressão corporal mais apática e Camilo era mais ativo, complementando algumas informações fornecidas pelo pai.
Outro dado importante foi o relato de morte por envenenamento recente do cachorro dos filhos. Segundo Ricardo, “o que já estava mal ficou pior!”. Os adolescentes falaram pouco sobre o assunto e manifestaram comportamentos dissociados. Os dois afirmaram sentir tristeza, mas sorriram constrangidos. Desde as primeiras duas entrevistas, observaram-se dificuldades no exercício da parentalidade e na expressão afetiva familiar. Tais dificuldades emergiam no contexto de mudanças no ciclo familiar, como a adolescência dos filhos, e dos lutos pela saída da casa da mãe e pela perda do animal de estimação.
Para ampliar a compreensão da psicodinâmica da família, optou-se pela aplicação de dois instrumentos de avaliação familiar: a EFE e o ADF. Na terceira entrevista, foi aplicada a EFE, que permite avaliar aspectos como: comunicação, papéis familiares, liderança, manifestação da agressividade, afeição física, interação conjugal, individualização, integração, autoestima e promoção de saúde emocional. Em seguida, foi aplicado o ADF, uma técnica projetiva, ampliando o acesso aos conteúdos emocionais mais primitivos e a outros elementos psíquicos relacionados à demanda latente. O uso de desenhos viabilizou a expressão de conteúdos não revelados verbalmente, quando da aplicação da EFE, sobretudo pelos filhos, que se sentiram confortáveis com a técnica projetivo-expressiva gráfica.
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