ANÁLISE DA EFE
A análise da EFE revelou elementos importantes da psicodinâmica familiar, apontando aspectos facilitadores e dificultadores da saúde emocional familiar. A Família Lopes apresentou dificuldades quanto à integração familiar e à liderança. Na primeira tarefa, por exemplo, na qual eles precisavam imaginar como se organizariam para fazer uma mudança de casa, Camilo pediu para falar primeiro e relatou que arrumaria as malas e pronto. Logo em seguida, o pai perguntou: “Mas mudar para aonde? Outro estado?”, revelando dificuldades de coordenar esforços para chegar a uma solução grupal. Corroborou a fala do filho: “Ah, é isso, ia pegar as malas, ver outra casa…” e solicitou que a filha falasse alguma coisa. Isadora disse que ia esperar o dia chegar. Nenhum dos membros da família exerceu a liderança propriamente, embora o filho tenha demonstrado mais iniciativa. Repetiram comportamentos sem implicação e responsabilidade com o resultado da tarefa, como se fossem um grupo de crianças à espera de orientação. Esses dados corroboram observações das primeiras entrevistas quanto à desvitalização do pai e à da filha, sobretudo, e quanto às dificuldades no exercício da função parental.
A autoestima dos membros da família também se revelou diminuída. Na segunda tarefa, Camilo continuou sendo o primeiro a falar, demonstrando iniciativa, embora com ansiedade. Explicou que, primeiramente, ia pedir ajuda e, caso ninguém pudesse ajudá-lo, ia procurar um vídeo no Youtube. Ricardo falou em seguida: “Eu ia tentar primeiro fazer sozinho, mas se não conseguisse, pediria ajuda para alguém, minha mãe, quer dizer, minha mãe não, porque ela é meio difícil, pediria para a minha irmã”. Isadora hesitou em responder, mas, após o questionamento de uma das psicoterapeutas, disse que contaria com o apoio da irmã mais velha (fruto de um relacionamento anterior de sua mãe). A capacidade de buscar ajuda estava preservada em todos eles, um indicativo de boa autoestima, mas apresentavam pouca confiança no recebimento de apoio, sobretudo das figuras parentais. A busca de apoio foi deslocada para os pares (relações horizontais) e o pai se colocou em posição infantilizada no grupo familiar. Quando foram questionados sobre atributos pessoais valorizados, na terceira tarefa, Camilo se referiu a características físicas, como força e habilidades no futebol, Ricardo ressaltou que gostava de ser um homem trabalhador e Isadora, apesar de demonstrar dificuldade em identificar aspectos positivos em si mesma, disse que gostava de ser uma pessoa sincera.
A delimitação de papéis familiares na Família Lopes revelou-se pouco clara e a individualização dos membros se mostrou precária. Em quase todas as tarefas, o pai apresentava comportamentos semelhantes aos dos filhos, manifestando dificuldade em assumir o papel parental e de se diferenciar deles. Na quarta tarefa, raro momento em que Ricardo tomou a iniciativa de falar, ele disse: “Em dia de feriado, a família toda assiste à televisão comendo algo e, por vezes, minha irmã sai para passear com os sobrinhos”. Não houve nenhuma referência a momentos de lazer individual do pai nem à sua vida afetivo-sexual. A categoria interação conjugal não foi avaliada. Comentou também que os filhos, depois que cresceram, não queriam mais sair com ele, revelando dificuldade em se relacionar com os filhos adolescentes, embora demonstrando desejo de aproximar-se deles. Isadora permaneceu a maior parte do tempo cabisbaixa e Camilo mencionou que gostava de jogar bola, mas que o pai dizia que era perigoso ficar na rua. Ricardo demonstrou sentir-se desorientado e impotente diante das situações de violência social presentes na comunidade em que a família vivia. A falta de definição dos papéis familiares se refletia em dificuldades quanto ao estabelecimento de regras, que eram pouco consistentes, e nos conflitos com a avó paterna.
A comunicação na Família Lopes, apesar de ser relativamente clara, congruente e adequadamente direcionada, apresentava falhas quanto ao investimento emocional. As mensagens eram transmitidas sem carga emocional adequada. Havia um esvaziamento de afeto, representado, sobretudo, por Isadora. A manifestação de agressividade era presente e aceita por pai e filho, sobretudo, mas o seu direcionamento não era adequado. Na quinta tarefa, pai e filho apresentaram atitudes semelhantes, com descarga da agressividade sem a necessária contenção do pai; pareciam dois irmãos. Ambos disseram que empurrariam a pessoa imediatamente. A filha se recolheu, dizendo que “ia para o quarto, se fosse empurrada por um adulto”, demonstrando apatia.
A expressão de afeição física, que pode ser evidenciada mais claramente na sexta tarefa, foi bastante inibida. O pai, inicialmente, disse que abraçaria os filhos, mas teve dificuldade em expressar afeição física de modo espontâneo. Camilo agiu de modo semelhante ao pai e Isadora permaneceu cabisbaixa, sem conseguir expressar afeição. A filha disse que “não gostava muito dessas coisas”. Nesse momento, o pai contradisse a filha, falando que era “mentira, pois ela era a mais carinhosa de todos. Contudo, mudou de comportamento conforme foi ficando mais velha”. Observou-se constrangimento quanto à manifestação de afeição física, um indicador de que havia bloqueios na intimidade familiar. De modo geral, a família apresentou limitações quanto à promoção de saúde emocional, embora com potencial de desenvolvimento de aspectos facilitadores da psicodinâmica familiar.
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